Miróbriga, a Rádio Entre a Planície e o Mar

A emitir a partir do Alentejo em 102.7 FM e em miróbriga.pt, a Rádio Miróbriga em 2011 assinalou o seu vigésimo quinto aniversário. Este é o nosso novo lugar na blogoesfera
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Crónica de D. António

A Crónica de D. António Vitalino na Rádio Miróbriga para a semana de 15 de Maio de 2012
    Sinais de esperança

1. Sinais de esperança na crise
Neste fim de semana participei em dois acontecimentos que me deixam antever alguma luz no meio do túnel da crise, quando os políticos e a comunicação social criam um fait divers a partir de expressões, infelizes para uns e reais para outros.
Tratou-se da bênção dos finalistas, vulgarmente denominada bênção das pastas, dos estudantes do ensino superior de Beja, e da peregrinação aniversária das aparições de Fátima, que este ano superou todas as expetativas no que se refere ao número de peregrinos.
No pavilhão multiusos da feira de Beja realizou-se, uma vez mais, a bênção dos finalistas, preparada pelo Pastoral do Ensino Superior da diocese, orientada pelo Pe. António Cartageno. Esta celebração envolve muitas pessoas, quase todas estudantes: cantores, instrumentistas, leitores, acólitos, etc. E também atrai muita gente a Beja, vinda de todas as partes do país, de modo que a cidade fica inundada de carros. Há sempre um ambiente de muita alegria, que a reverberação do pavilhão aumenta e não favorece a atenção a discursos nem a concentração. Por isso optei uma vez mais por não ler ou proferir a alocução preparada e limitei-me a proferir alguns desafios e provocações, que a seguir transcrevo.
Parafraseando o trecho do evangelho proclamado, onde se lê “nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu”, afirmei: nem todo aquele que estudou e sabe entrará no mundo do trabalho, mas aquele que tem padrinhos e cunhas de peso. Isto é tanto mais verdade neste momento de grande percentagem de desempregados, sobretudo entre os jovens.
Constatando a verdade desta afirmação entre os hábitos da nossa sociedade, desafiei os finalistas a unir forças para mudar o nosso país destes maus hábitos, que fomentam atitudes de preguiça, de pelágio, de falta de criatividade, de atraso cultural, social e conómico. Baseados no seu saber, devem mostrar que valeu a pena o esforço feito, que, aliado à investigação e inovação contribuirá para o desenvolvimento e o progresso do país, tirando-o da crise e evitando a emigração em massa dos nossos jovens formados e dos nossos cérebros.
Neste sentido elogiei os professores, as famílias e a sociedade que acreditam no poder do saber, desafiando-os a continuar a sua missão. Por isso lhes agradeci em nome dos finalistas e para todos implorei a bênção de Deus, que todos os anos pedem ao Bispo de Beja, porque sentem que a vida humana não é um processo do acaso, mas precisa de se abrir ao transcendente, a Deus.

2. Saber humano e bênção de Deus
A confiança na inteligência humana não se opõe à necessidade de abertura à sabedoria e bênção de Deus. Este sentir faz parte da alma do nosso povo e do seu bom senso. Por isso, espontâneamente, na procissão de saída do recinto onde foi celebrada a bênção, muitas dezenas de finalistas se aproximaram do bispo e pediram uma bênção especial e pessoal, o que fiz, assinalando-os com o sinal da cruz na fronte, felicitando-os e incitando-os a lutar com confiança.
Esta mesma abertura ao poder de Deus e à intercessão de Nossa Senhora constatei nas centenas de milhar de peregrinos de Fátima, que nos dias 12 e 13 aguentaram longas horas, de pé, no recinto do santuário, participando nas celebrações principais da peregrinação. Muitos tinham caminhado longos quilómetros, como peregrinos que vieram a pé, para virem revigorar as suas energias aos pés de Nossa Senhora. Há razões que só o coração conhece, como dizia Pascal, e os rostos dos peregrinos, muitos com lágrimas a correr, isso mesmo testemunhavam. A espiritualidade faz parte da estrutura da pessoa humana. Isto mesmo afirmou o cardeal Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura
Estas atitudes dos portugueses, quer dos estudantes quer dos peregrinos de Fátima, fazem-me acreditar que vamos superar a crise. O esforço humano, os investimentos, a investigação, a solidariedade, a justiça são imprescindíveis. Mas sem a abertura ao transcendente, a Deus, sem a fé e confiança do crente, sem a ajuda do alto, dificilmente se manterá a força e integridade das virtudes humanas. Que Nossa Senhora de Fátima mantenha viva a fé dos portugueses.
                           † António Vitalino, Bispo de Beja

terça-feira, 3 de abril de 2012

A crónica de D. António Vitalino

Semana de 02 de Abril de 2012
Para quem não teve oportunidade de escutar nas emissões da Miróbriga a crónica de opinião de D. António Vitalino, aqui deixamos o texto integral. A Crónica de D. António Vitalino é emitida na Miróbriga às terças-feiras com reposição aos Sábados depois do meio dia.

D. Manuel Falcão e a Páscoa

Depois de termos apresentado D. Manuel Falcão na primeira fase da sua vida, como membro de uma família exemplar, estudante e cristão, agora vou descrever um pouco da sua fisionomia como bispo, homem da Igreja e homem de Deus.

Homem pontual, de oração, da escuta e do silêncio
O amor ao estudo, ao apostolado da Igreja e aos pobres acompanharam sempre D. Manuel Falcão, até à morte. Já como bispo emérito, com mais disponibilidade, escreveu a Enciclopédia Católica Popular e um livro sobre o leigo, sua identidade e missão, continuando a escrever semanalmente para o jornal Notícias de Beja, a par de imensas cartas, assim como opúsculos diversos para entregar aos numerosos membros da família e aos amigos. O último foi acabado de escrever a 1 de Janeiro de 2012, com o título profético: Uma existência envolta em mistérios (À laia de testamento espiritual). Ajudava muitas pessoas e instituições, sobretudo os pobres, de perto e de longe. Muitas vezes escrevia e afirmava que a Igreja tem de ser mais missionária, interna e externamente, e mais participada pelos leigos. Por isso lia e recomendava a leitura de revistas missionárias, ajudava muitos missionários e obras em terras de missão.
Há facetas na vida de D. Manuel que lhe são muito próprias e até únicas. Uma delas é ser uma pessoa da escuta atenta e silenciosa, sem perder tempo em comentários inúteis. Até na maneira de escrever evitava os adjectivos, qualificando-os de subjetivos. Era uma pessoa da palavra substantiva e substancial: sujeito, predicado e complementos. Os seus colegas do tempo de seminário por vezes desafiavam-no a dizer uma palavra e ele, no seu humor fino e seco, repetia simplesmente: uma palavra.  Mas deixava os outros exprimirem-se, escutando-os e desse modo ajudava mais do que se pode pensar.
Como bispo emérito, a ocupar o mesmo quarto e gabinete desde 1983, foi arrumando a sua escrita, passando para o arquivo diocesano aquilo que julgava oportuno, mas sempre lendo, estudando, escrevendo e rezando, num ritmo diário que poderíamos qualificar de monástico. Pontualíssimo em todos os actos, ultimamente seguindo um relógio electrónico, que ele acertava ao segundo exacto pelo noticiário da rádio renascença. Uns segundos antes da hora lá estava ele pronto para iniciar o ato do programa diário. Mesmo quando me acompanhava nas viagens, à hora marcada lá estava junto do carro, à espera que eu chegasse e entrasse.
Morreu como viveu: sereno, com tudo arrumado e orientado. Na carta que tinha junto ao testamento, uma para o bispo e outra para a família, escrita a 25 de Julho de 2009, com o título de Minhas últimas vontades em complemento do Testamento, dizia o que deixava à diocese do seu espólio pessoal e o que pertencia à família, mencionando onde se encontrava, deixando ao critério do bispo o destino a dar aos dossiers das pessoas que ele acompanhou espiritual e materialmente e pedindo para enviar a estas um último donativo da sua conta pessoal no banco, com a notícia da sua morte e o pedido de orações pelo seu descanso eterno. E transcrevia os endereços dessas pessoas.
À diocese de Beja deixou tudo, os seus avultados bens, ainda em sociedade com os seus irmãos, que, eles também desprendidos e amigos de fazer o bem, cumprem sem hesitação. Mas, mais que tudo, deu-se todo até ao último dia. Por isso, não fazemos mais que a nossa obrigação, manifestando publicamente a nossa gratidão a D. Manuel e ao Senhor, pela vida deste grande homem de Deus e do povo. Que viva para sempre junto de Deus e na nossa memória agradecida.

A Páscoa de D. Manuel e a nossa
A Paixão, morte e ressurreição de Cristo constituem o mistério da Páscoa de Jesus, cuja celebração nós preparamos com o tempo de Quaresma e depois prolongamos na alegria do tempo pascal até ao Pentecostes. Olhando para Jesus Cristo na sua entrega e dom da vida por nosso amor e nossa salvação, vamos conformando a nossa vida à d’Ele, fazendo também a nossa passagem do homem terreno para o homem celeste, através do mistério do sofrimento e da morte.
D. Manuel Falcão já fez a sua passagem definitiva. Não precisou de mais uma Quaresma de preparação, pois morreu na véspera de quarta-feira de cinzas. Mas a sua Páscoa começou na sua infância, no seu baptismo e teve um tempo duro de paixão a partir da sexta-feira santa de 2004, quando teve uma grave crise de saúde, com paragens renais e cardíacas, que o tornaram dependente da hemodiálise, a que esteve sujeito até à véspera da sua morte, que ele pressentia para breve e para a qual estava preparado, qual manso cordeiro. Nesta primeira Páscoa sem a sua presença física entre nós invocámo-lo e pedimos a sua intercessão junto de Deus, para que também nós nos preparemos para a nossa Páscoa. Como seu sucessor na diocese de Beja desejo a todos alegre e feliz Páscoa.
† António Vitalino, Bispo de Beja

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mensagem de D. António Vitalino

Emissão de 10 de Janeiro de 2012

Depois de ouvir as palavras, recorde a mensagem de D. António Vitalino na Miróbriga:

A magia do sonho e a luz para o caminho

Os cristãos terminam o ano civil e começam o novo imersos na alegria e simplicidade da quadra natalícia. O nascimento de uma criança numa gruta de pastores, que afinal é o Messias, o Salvador prometido, os anjos cantando a glória de Deus, a família de Nazaré e a da prima Isabel com Zacarias e João Batista, o rei Herodes e a narrativa dos sábios do oriente, conhecida como história dos reis magos, os seus presentes simbólicos, ouro, incenso e mirra, entregues ao menino de Belém, os cantares natalícios e das janeiras, no Alentejo o Cante ao Menino, tudo isto enche este tempo de uma magia especial, que nos faz sonhar de novo uma vida bela, repleta de luz, de cor e do amor espelhado na atenção e veneração dos adultos para com as crianças.
Sinto pena de quem não pode sentir e sonhar da mesma maneira, pois o sonho alimenta a vida, como alguém canta, fortalece a esperança e ilumina o caminho da humanidade à procura da felicidade, da realização plena. Mesmo que sejam menos exuberantes as iluminações natalícias por causa da crise energética e económica, a luz da fé continua a brilhar e a apontar-nos o caminho.
Ouvindo a narrativa dos reis magos, que em Jerusalém deixaram de ver a estrela e por isso se dirijiram ao palácio de Herodes, que, impertigado pela ameaça ao seu poder, reuniu os sacerdotes e escribas da corte, senti-me na pele destes personagens, movidos por ideais e atitudes contrárias e perguntei-me: porque uns procuram, se põem a caminho e os de casa não se interessam, estão instalados e adormecidos? Os sábios voltaram a ver a estrela, encontraram um menino envolto em palhas e adoraram-no, voltando depois para suas terras por outros caminhos, cheios de alegria e esperança, enquanto Herodes, fica no seu palácio, frustrado, maquina a morte e a vingança.
Partilhando estas histórias e pensamentos em ambientes diferentes, entre presos e em comunidades paroquiais, percebi que precisamos de alimentar a nossa vida com o sonho e a esperança, purificar o nosso olhar, para descobrir a luz de Deus nas crianças, nos pobres, nos marginalizados dos poderes deste mundo. Se o fizermos, vamos descobrir caminhos novos para nós e a humanidade, que nos ajudarão a vencer as crises, cujas raizes estão no coração ambicioso de muitos, que excluem Deus do seu horizonte.
Quem procura, de coração sincero, movido pelo amor à verdade, à justiça, à fraternidade, à família, encontra a luz para o caminho da vida. Quem se instala, adormece ou nutre ambição de poder e de domínio sobre o seu semelhante, deixa de sonhar e ver a luz.
Mas será que todos os cristãos ainda sonham um mundo melhor, alimentam a sua esperança e a dos seus semelhantes, iluminando os caminhos da vida? Parece-me que muitos esconderam a luz da fé debaixo do alqueire ou fecharam-na num esconderijo da casa.
Precisamos de alimentar os nossos sonhos e iluminar a nossa esperança com a Palavra de Deus e partilhá-la no diálogo intergeracional e na missão eclesial, para que haja luz para a vida do mundo. Neste sentido, no dia 21, em Santiago do Cacém, iremos reunir os animadores da missão e das assembleias familiares, para prepararmos o relançamento das missões. Temos um manancial de alimento para partilhar a luz e alimentar a esperança. Vamos levantar-nos do sono, procurar e caminhar, pois quem busca encontra.
Até para a semana, se Deus quiser
 
† António Vitalino, Bispo de Beja

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Crónica de D. António Vitalino

As crónicas de D. António Vitalino estão na Rádio Miróbriga

A paz, o futuro e os jovens

Na passagem de ano muitos desejos foram expressos, quase todos ao nível da realização económica, profissional e da saúde, poucos apontando para dimensões mais transcendentes, para as relações profundas da pessoa humana. É precisamente por aí que começa e termina a mensagem do Papa para o dia mundial da paz, que desde 1968 se celebra no primeiro dia do ano civil. Bento XVI convida-nos a levantar os olhos para o alto, de onde nos virá o auxílio. Exorta-nos a suspirar pela luz que vem das alturas, como a sentinela espera pela aurora. Sem esta luz dificilmente encontraremos o sentido da vida humana e do mundo.
Referindo-se à frustração reinante por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia, o Papa alude às suas raizes profundas, primariamente culturais e antropológicas. Nesta escuridão de sentido o coração humano anseia pela aurora. Isto nota-se particularmente nos jovens, que não é a geração rasca ou do vazio, mas a indignada perante uma sociedade sem valores. Por isso Bento XVI dirige esta primeira mensagem do ano aos jovens, que podem oferecer um valioso contributo à sociedade para encontrar rumo e sentido, dando uma nova esperança ao mundo. “A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum”, a descobrirem novas perspetivas sobre a vida e o mundo.
Este novo olhar dos jovens exige dos adultos, dos educadores e da família novas pedagogias, uma relação de amor, em que cada interveniente pôe o outro em primeiro lugar, numa atitude de respeito pela dignidade da pessoa, de abertura e de testemunho das próprias convicções e saberes. “É na família que se aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento. Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz”.
À luz destes princípios os adultos e as instituições sociais, culturais e políticas, e também as religiosas, têm muito a rever na sua pedagogia, no seu testemunho e até mesmo pedir desculpa às novas gerações pelo nosso desinteresse, para não dizer esquecimento ou negação, pela verdade, pela justiça, pela solidariedade, pelo bem comum, pelos valores transcendentes e espirituais. As atitudes materialistas, egoistas e relativistas dos adultos projetaram muitas sombras e trevas nos horizontes das novas gerações. Mas o coração do ser humano, sobretudo o do jovem, dificilmente se deixa abafar. Por isso o bem-aventurado Papa João Paulo II dizia em 1982, no Parque Eduardo VII, que os jovens têm uma certa conaturalidade com Cristo, pois são mais sensíveis aos verdadeiros valores. A experiência de Santo Agostinho continua a ser feita por muitos jovens, quando descobrem a beleza do amor de Deus e a fugacidade e mentira das atrações mundanas.
Também Bento XVI manifesta uma grande confiança nos jovens, dizendo que são um dom precioso para a sociedade, exortando-os a não se deixar invadir pelo desânimo nem abandonar-se a falsas soluções, mas deixando-se fascinar pela verdade, beleza e amor verdadeiro, tornando-se assim também um exemplo e estímulo para os adultos.
Enfim, unindo as nossas forças espirituais, morais e materiais, conseguiremos alcançar a meta de um mundo com rosto mais humano, fraterno, justo, pacífico e solidário, onde dá gosto viver, sempre peregrinos do além, que está em Deus, tornado visível no Menino que nos foi dado, nascido em Belém, o Emanuel, Deus connosco, Jesus, o Salvador.
Para todos os meus votos de um ano de paz, repleto das bênçaos de Deus e de um futuro de maior esperança, em sintonia com todas as gerações, a começar pela família.
                                    
† António Vitalino, Bispo de Beja

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Reflexões a partir do Alentejo

Na Miróbriga às Terças
Esta foi a Crónica de D. António Vitalino emitida nos 102.7 do Alentejo no dia 15 de Novembro de 2011.
As Crónicas de D. António são emitidas na Rádio Miróbriga, às Terças-feiras depois da uma da tarde com reposição depois das nove da noite. 

Vidas com sentido

Devido a problemas de voz e múltiplos afazeres, nas últimas semanas não tenho tornado públicas as minhas reflexões e preocupações. Um turbilhão de pensamentos aflora ao meu espírito e sinto dificuldade em decidir quais devo comunicar nesta breve nota da semana.
Dado que todos falam de crise, no mês de Novembro muitos lembram os seus mortos e a liturgia da Igreja nos pede para estarmos atentos e vigilantes à espera do Senhor, tudo realidades que tocam as nossas vidas em profundidade, resolvi tecer algumas ideias sobre o sentido das nossas vidas e apontar algumas vidas com sentido.
Uma das mensagens emitidas pelos bispos portugueses reunidos em assembleia plenária em Fátima, de 7 a 10 de Novembro, tem o título sugestivo de esperança em tempo de crise. Depois de uma breve análise da situação, os bispos afirmam a sua disposição de se tornarem mais próximos, sobretudo dos mais frágeis e que a generosidade e a coragem com que se superam as dificuldades são fermento de uma sociedade nova, justa e saudável, animada por valores que nunca deveríamos ter esquecido. No meio deste arrazoado aparece uma frase, que, retirada do seu contexto, pode ser uma verdadeira bomba, recordando os tempos do capitalismo e do marxismo. Diz-se que o capital provém do trabalho e este, realizando a pessoa humana, mantém prioridade absoluta. Com isto reconhece-se a primazia da pessoa humana sobre outros valores e afirma-se que o trabalho é importante para a realização da pessoa humana.
A mensagem termina recordando os quatro princípios basilares da doutrina social da Igreja, um forte contributo para a orientação das nossas sociedades, a saber, a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade, que suscita e apoia a contribuição específica de cada corpo social e a solidariedade, expressão da fraternidade, que nunca procura o bem particular sem ter em conta o bem de todos.
 Mas, quando afirmamos a prioridade do trabalho sobre o capital, não devemos pensar apenas no trabalho remunerado, apelidando de ociosos e parasitas todos os que não produzem para o mercado. Há muitas vidas férteis e com sentido fora do circuito económico. Os pensadores, os contemplativos, a vida de convivência familiar, o cultivo da amizade, o voluntariado religioso e social e muitos outros, contribuem para a beleza e realização da humanidade. Mas não deixa de ser verdade que a pessoa humana se realiza pela ação, sendo o trabalho remunerado uma dessas expressões e muito necessário para a subsistência e projeção da pessoa em ordem à sua realização integral. Por isso uma sociedade organizada não pode pôr o dinheiro e a economia acima do direito ao trabalho em ordem à realização da dignidade das pessoas que a compõem.
Neste tempo de mutação cultural e social e de racionalização das empresas e do mercado não podemos esquecer estes princípios básicos da dignidade humana e da coesão social. Um aumento explosivo do desemprego e a falta de meios para proteger os mais frágeis, não apenas atenta contra a dignidade do ser humano, mas também põem em perigo a própria sociedade.
Precisamos de estar vigilantes, atentos e ser sóbrios, como dizia S. Paulo aos Tessalonicenses, para sermos fermento dessa nova maneira de ser e de viver, mais centrada nos valores essenciais da vida neste planeta, que queremos para nós e para as gerações vindouras, a quem devemos transmitir também o testemunho de vidas com sentido na dimensão pessoal, familiar, social, cultural, política e económica. Vidas com esperança, amor e alegria, valores que nem sempre o dinheiro, o poder e o consumo fomentam.
É tempo de olhar para os nossos santos, os vivos e os falecidos e descobrir vidas felizes marcadas por outros modos de viver. A mensagem enviada pelos bispos aos jovens aponta nesse sentido. Mas como é breve, recomendo a sua leitura.

Até para a semana, se Deus quiser.
† António Vitalino, Bispo de Beja